Cada dia eu percebo mais que não tenho casa. Que não quero casa. Que não consigo caber dentro de uma casa.
Percebi que eu sempre quis, ou que não me era uma escolha, correr de tudo o que me prometia felicidade. Como se não fosse feita para mim. Como se não coubesse dentro de mim.
De certo o medo, a condição oposta, o fato de ter sofrido dez mil anos em tão pouco tempo tenha sido os motivos principais de minha intolerância à felicidade.
A verdade é que eu sempre fui a menina da janela. Que dormia de luz acesa, que ignorava a lua e procurava estrelas, que olhava para baixo imaginando um sonho de queda que viria a me perseguir por todos os anos.
Não sou mais do que ontem. Ao contrário: cada vez me sinto mais reservada, mais detalhista, mais intolerante e parecida com meu pai. É a cadeia irreversível de sofrimentos hereditários que pagamos por contas de outras vidas.
Olho as janelas, são pequenas. Não gosto mais das cores na parede. Tenho em meus braços os sonhos guardados (à espera). Passagens nas mãos. Toda a ilusão e promessa que qualquer lugar que seja longe o suficiente, seja também o meu porto de paz.
Mas o amor, o amor ainda não é pro meu bico.
Ana L. Alves
Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…
“Eu te amo como se ama um passarinho morto.”
Vontade de conhecer o Bandeira, só pra ele me explicar isso. Ainda não me acostumei com a profundidade dessa frase.
My little bird,
Eu menti. Eu sei que você tem essa aversidade à mentiras e que tudo te enoja, mas entende que foi isso também que te trouxe para mim. Você ama tudo que você odeia. Foi isso que aconteceu. Por eu ser a idealização de tudo que você nunca sonhou, você me quis. E eu não queria ninguém além de ti.
Você sempre mereceu alguém melhor e talvez eu tenha sido muito egoísta te mantendo ao meu lado. Mas entende que ninguém nunca tinha me cuidado daquela maneira. Ninguém nunca tinha percebido minhas faltas, enquanto negava com medo que o mundo não me afetava de nenhum modo. E que eu não morria aos poucos. E que ainda era capaz de voar.
Eu não me importava com nada. E de repente eu tinha que olhar por ti e ter certeza que você respirava. Você passou a ser a grande razão. E talvez foi isso que te sufocou. Você não suportava ser o meu mundo e a minha felicidade. Você não conseguia ser nada além de você.. Você sempre foi muito profunda e arrisco dizer que também não conseguia alcançar a si mesma. E carregar o meu peso, o que você fazia sem ao menos ser questionada, te afundava mais.
Minha querida, eu tenho a resposta que você tanto buscava em segredo. Você era obcecada em salvar as pessoas, para não ter que se salvar. A dor também é imensidão. Eu entendo agora.
Enquanto eu evitava suas quedas era você que me salvava em segredo. Eu menti de todas as formas, minha Eliza. Você sempre foi mais forte que eu.
Foi você quem venceu.
"